Palestra de abertura do GT 3 – Diversidade e meio ambiente

SOCIODIVERSIDADE E ATIVISMO AMBIENTAL: ENTRELAÇANDO SABERES E LUTAS PELA JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL



Introdução

A sociodiversidade, conceito que engloba a rica diversidade de culturas, saberes, cosmovisões e práticas sociais presentes em um determinado contexto, assume um papel crucial na luta pela justiça socioambiental. Essa multiplicidade de perspectivas e experiências oferece lentes valiosas para compreender os desafios ecológicos e sociais do nosso tempo, abrindo caminho para soluções inovadoras e contextualizadas.

O ativismo ambiental, por sua vez, emerge como um movimento social composto por indivíduos e grupos que se mobilizam em prol da defesa do meio ambiente e da justiça social. Essa mobilização, impulsionada pela sociodiversidade, se manifesta de diversas formas: desde protestos e ações de conscientização até a criação de projetos e iniciativas que promovem a sustentabilidade e a justiça social.

Na verdade, o movimento ambientalista surge de diferentes visões de mundo. Vários movimentos sociais, com diversos objetivos diferente levaram, ao longo da história da humanidade, pessoas às ruas para exigirem direitos iguais, melhor qualidade de vida, melhores condições de trabalho, dignidade e, também, proteção de espécies, minimização de impactos, mudanças em processos produtivos e serviços, entre outras manifestações. Essas ações podem ter maior ou menor impacto sobre o ambiente. Cabe aqui lembrar que a defesa do ambiente não é apenas a defesa da natureza, mas também do ambiente rural, urbano, cultural e social.

A sociodiversidade e o ativismo ambiental são temas profundamente interligados que refletem a complexidade das relações entre as culturas humanas e o meio ambiente. No Brasil, um país de vasta biodiversidade e rica pluralidade cultural, esses temas assumem uma importância ainda maior. A valorização dos saberes tradicionais e das práticas culturais das comunidades locais é essencial para a promoção da justiça socioambiental e para a construção de um futuro sustentável. Neste contexto, o ativismo ambiental emergiu como um movimento social vibrante e diversificado, mobilizando indivíduos e grupos em defesa do meio ambiente e dos direitos sociais.

O ativismo ambiental no Brasil tem raízes profundas que remontam aos movimentos sociais do século XX. Desde as lutas dos seringueiros na Amazônia lideradas por Chico Mendes até as mobilizações contemporâneas contra desastres ambientais como o rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho, a trajetória do ativismo ambiental brasileiro é marcada por resistência e inovação. Essas histórias de luta e resistência são essenciais para entender a evolução do movimento ambientalista e a importância da sociodiversidade nesse contexto.

Sociodiversidade e Saberes Ambientais

A sociodiversidade é um componente essencial para a construção de um futuro ambientalmente sustentável. Através da valorização dos saberes tradicionais e das cosmovisões dos povos da floresta (indígenas, ribeirinhos, outras comunidades tradicionais) e outros grupos sociais, podemos acessar uma rica gama de conhecimentos e práticas ancestrais que oferecem soluções para os desafios contemporâneos. O respeito à essa diversidade social e cultural é um passo inicial para melhor compreensão do mundo e da defesa ambiental.

Os saberes tradicionais, muitas vezes marginalizados pela sociedade dominante, possuem um papel fundamental na gestão ambiental e na preservação da biodiversidade. O conhecimento profundo dos ciclos naturais, das propriedades medicinais das plantas e das técnicas agrícolas tradicionais são exemplos da riqueza de saberes que podem contribuir para a construção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

No caso do Quilombo do Rio dos Macacos, localizado na região metropolitana de Salvador, temos um exemplo emblemático de luta pela justiça socioambiental. Os quilombolas enfrentam desafios constantes para garantir o direito à terra e à preservação de seu modo de vida tradicional. A comunidade tem se mobilizado ativamente para proteger seus recursos naturais e promover a sustentabilidade. Cordeiro (2019) em seu artigo denota o conflito territorial entre a comunidade quilombola-pesqueira de Rio dos Macacos, na Bahia, e a Marinha do Brasil, que se intensificou a partir da década de 1970. A pesquisa analisou a história de resistência da comunidade, as transformações em seu modo de vida tradicional devido à militarização da área, e as negociações com o governo federal para a regularização fundiária. O estudo demonstrou a disparidade entre o reconhecimento da identidade quilombola e a garantia de seus direitos territoriais, evidenciando a negligência do Estado em relação aos territórios quilombolas no Brasil. A proposta de regularização de apenas 104 hectares fragmentava o território e desconsiderava as atividades de pesca e extrativismo essenciais para a sobrevivência da comunidade. Além disso, a pesquisa registrou a criminalização da comunidade por parte da Marinha, que a acusava de degradação ambiental, e as tentativas de branqueamento do território.

Um exemplo diferente é o do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). CÂMARA, TERRA & SOARES (2021) realizaram um estudo de revisão da literatura sobre o protagonismo do MAB nas dinâmicas do desenvolvimento a partir da categoria da sustentabilidade, oferece informações sobre a trajetória e as estratégias do movimento, seu enfrentamento ao modelo de crises e constâncias assumidas pela conjuntura capitalista, que questiona a centralização de poder nas mãos do governo federal para definir a política energética. Os autores criticam o discurso que associa empreendimentos hidrelétricos a progresso e desenvolvimento, enquanto minimiza ou ignora os impactos negativos, como a liberação de gases de efeito estufa, a modificação de ecossistemas e a transformação de comunidades. O MAB ganhou dimensão nacional através da interlocução com outros movimentos sociais e questionou o modelo energético, defendendo uma democracia participativa. Nesse texto, discutem a evolução do conceito de atingido, que ganhou status de direito humano a partir do reconhecimento e da legitimação de garantias desses indivíduos, grupos sociais e comunidades.

SILVA & ROTHMAN (2011) já tinham mencionado as etapas de representação do MAB na imprensa, especificamente em Minas Gerais, destacando que existiram três etapas: exclusão, criminalização e, finalmente, visibilidade. No princípio, não era mencionando o movimento ou a barragem de Candonga. Essa estratégia de exclusão visava eliminar qualquer obstáculo à construção de barragens, especialmente durante o período do apagão, quando a imprensa reforçava a necessidade de construir novas hidrelétricas. Em um momento posterior, quando o MAB intensificou suas ações diretas, como ocupações de canteiros de obras, a imprensa passou a criminalizar o movimento, utilizando termos como “invasão” para descrever as ações do MAB e associando o movimento a crimes e ameaças à ordem pública. Apesar das estratégias de exclusão e criminalização, o MAB também conseguiu obter visibilidade na imprensa em alguns momentos. Essa visibilidade, no entanto, muitas vezes vinha acompanhada de uma minimização das ações do movimento e de uma exclusão de seus objetivos mais amplos. A análise sobre o enquadramento do MAB pela imprensa pode ser relacionada com o conflito territorial em Rio dos Macacos, onde a Marinha do Brasil buscava impor sua territorialidade militarizada e descaracterizar a identidade quilombola da comunidade.

Ativismo Ambiental e Sociodiversidade

As desigualdades socioambientais no Brasil são evidentes em diversos contextos, desde as áreas urbanas periféricas até as comunidades rurais e indígenas. Essas desigualdades refletem a distribuição desigual de recursos e oportunidades, afetando desproporcionalmente as populações mais vulneráveis. O ativismo ambiental busca abordar essas disparidades, promovendo a equidade e a inclusão social.

O ativismo ambiental torna-se mais forte e eficaz quando incorpora a sociodiversidade em suas práticas e estratégias. A participação de diferentes grupos sociais, com suas diferentes visões de mundo e experiências, enriquece o debate ambiental e contribui para a construção de soluções mais justas e equitativas.

Ações de ativismo ambiental que reconhecem e valorizam a sociodiversidade incluem:

(i) Inclusão de diferentes grupos sociais nos processos de tomada de decisão ambiental: povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, mulheres, jovens e outros grupos minoritários devem ter voz ativa nas decisões que impactam seus territórios e comunidades;

(ii) Apoio a iniciativas e projetos que promovem a justiça socioambiental: iniciativas que fortalecem a autonomia e a autodeterminação dos povos e comunidades tradicionais, que promovem a agroecologia e a agricultura familiar, e que lutam contra a desigualdade social e ambiental são exemplos de projetos que merecem o apoio do movimento ambientalista;

(iii) Combate ao racismo ambiental e à discriminação: o ativismo ambiental deve se posicionar contra o racismo ambiental e outras formas de discriminação que afetam de forma desproporcional comunidades marginalizadas;

(iv) Combate à discriminação da comunidade LGBTQIA+: o ativismo ambiental deve incluir a compreensão de que membros dessa comunidade, especialmente de pessoas com origem em grupos sociais com menor poder aquisitivo, podem ser abandonados pela família por motivo de intolerância, podendo viver em situação de rua, expostos à uma maior vulnerabilidade social e ambiental;

(v) Defesa da igualdade de gênero: a questão de gênero se entrelaça com o ativismo ambiental de forma complexa e crucial. As mulheres, pessoas trans e não-binárias são frequentemente as mais impactadas pelos efeitos das mudanças climáticas e da degradação ambiental, devido a fatores como desigualdade social, econômica e política.

Desafios e Perspectivas

Apesar da importância da sociodiversidade para o ativismo ambiental, ainda há muitos desafios a serem superados. A exclusão de grupos minoritários dos processos de decisão ambiental, a falta de reconhecimento dos saberes tradicionais e a persistência do racismo ambiental são alguns dos obstáculos que precisam ser enfrentados. Neste contexto, cabe ressaltar que entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), onze deles estão diretamente ligadas às questões socioambientais, são eles: o combate à fome, erradicação da pobreza, saúde e bem-estar, educação, igualdade de gênero, trabalho decente, produção industrial, redução de desigualdades, cidades e comunidades sustentáveis, consumo e produção sustentáveis, e paz, justiça e instituições eficazes. Isso não significa que os demais objetivos não estejam ligados às questões sociais.

Para fortalecer a relação entre sociodiversidade e ativismo ambiental, é necessário:

  • Promover a educação ambiental intercultural: a educação ambiental deve ser crítica, intercultural e inclusiva, reconhecendo e valorizando a diversidade de saberes e experiências presentes na sociedade. A produção de materiais educacionais locais, que considerem aspectos sociais, culturais, geográficos e naturais daquela região e que considere valores e princípios da população com a qual se pretende desenvolver tais ações de educação.

  • Fortalecer as redes de articulação entre diferentes grupos sociais: a construção de redes de apoio e colaboração entre povos indígenas, comunidades tradicionais, movimentos sociais e outros grupos é fundamental para a construção de um movimento ambiental mais amplo e plural. Aqui pode ser focado o décimo sétimo ODS, que fala em parcerias e meios de implementação.

  • Investir em pesquisas e estudos que explorem a relação entre sociodiversidade e ativismo ambiental: a produção de conhecimento, além da divulgação e popularização desse conhecimento, sobre essa temática é essencial para embasar a ação política e fortalecer o movimento ambientalista.

As tecnologias sustentáveis desempenham um papel crucial na promoção da justiça socioambiental. Inovações como a agroecologia, a energia solar e a gestão integrada de resíduos oferecem soluções práticas para os desafios ambientais contemporâneos. Essas tecnologias não apenas mitigam os impactos ambientais, mas também empoderam comunidades locais, promovendo a autonomia e a resiliência.

No entanto, a transição para um modelo verdadeiramente sustentável exige mais do que tecnologia – demanda uma mudança de mentalidade. O avanço dessas inovações precisa ser acompanhado por políticas públicas que incentivem sua adoção e tornem seu acesso mais democrático. Além disso, é essencial construir uma cultura de sustentabilidade que vá além do consumo consciente e se enraíze em práticas comunitárias e coletivas. Quando a inovação tecnológica se alia ao engajamento social, a sustentabilidade deixa de ser um ideal distante e se torna uma força transformadora, capaz de redefinir não apenas nossa relação com o meio ambiente, mas também a forma como vivemos, produzimos e coexistimos no mundo.

Discriminação da Comunidade LGBTQIA+ e a Crise Ambiental: Uma Interseccionalidade Cruel

A discriminação da comunidade LGBTQIA+ se entrelaça com a crise ambiental, destacando-se as mudanças climáticas1, de forma complexa e cruel, criando vulnerabilidades e desafios específicos para essa população. Para compreender essa interseccionalidade, é fundamental analisar como a marginalização social e os impactos ambientais se amplificam mutuamente.

A discriminação no mercado de trabalho e no acesso à moradia frequentemente força pessoas LGBTQIA+ a viver em áreas mais precárias e suscetíveis a desastres naturais, como encostas de morros e regiões ribeirinhas. A exclusão social e a falta de apoio familiar podem dificultar o acesso a recursos básicos como água potável, alimentos e abrigo em situações de crise climática. A comunidade LGBTQIA+ enfrenta um risco maior de violência e discriminação durante e após desastres naturais, seja por parte de outros sobreviventes ou de autoridades.

Embora estejamos todos sujeitos às crises ambientais, existe uma desproporcionalidade quando aos impactos sofridos por muitos grupos sociais que não dispõem dos mesmos recursos que grupos mais favorecidos socialmente. A comunidade LGBTQIA+ já é mais propensa a sofrer de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais. A experiência de um desastre climático pode agravar esses problemas, levando a traumas psicológicos e necessidade de apoio especializado. Algumas vezes, eventos que podem ser considerados simples, como perda de documentos, fotos e outros objetos pessoais em um desastre natural pode ser particularmente mais difícil para pessoas LGBTQIA+, que podem ter esses itens como forma de afirmar sua identidade e pertencimento à comunidade. A discriminação e a falta de apoio podem dificultar o processo de reconstrução da vida após um desastre climático. O acesso a moradia digna, emprego e serviços de saúde pode ser ainda mais desafiador para pessoas LGBTQIA+. Podemos ver alguns exemplos reais a seguir:

  • Furacão Katrina: Durante o Furacão Katrina em 2005, pessoas transgênero foram barradas em abrigos de emergência ou forçadas a usar banheiros que não correspondiam à sua identidade de gênero.

  • Terremoto no Haiti: No terremoto no Haiti em 2010, casais LGBTQIA+ enfrentaram dificuldades para acessar ajuda humanitária e reconstruir suas casas devido à discriminação.

Governos e organizações internacionais devem implementar políticas que considerem as necessidades específicas da comunidade LGBTQIA+ em situações de crise climática. Fortalecer e financiar organizações que trabalham na linha de frente da resposta à crise climática é fundamental para garantir que a comunidade tenha acesso a recursos e apoio adequados. Combater a homofobia, a transfobia e outras formas de discriminação é essencial para criar um ambiente mais seguro e inclusivo para a comunidade LGBTQIA+, tanto em situações de crise quanto no dia a dia.

Conclusão

A sociodiversidade é um pilar fundamental para a construção de um futuro ambientalmente sustentável e socialmente justo. Através da valorização dos saberes tradicionais, da inclusão de diferentes grupos sociais nos processos de tomada de decisão e do combate ao racismo ambiental, o ativismo ambiental pode se fortalecer e contribuir para a transformação social e ambiental.

A interseccionalidade entre a discriminação da comunidade LGBTQIA+ e a crise ambiental exige uma resposta urgente e abrangente. Através de políticas públicas inclusivas, apoio a organizações LGBTQIA+ e ações de conscientização, podemos construir um futuro mais justo e resiliente para todos.

Ao reconhecer a riqueza da sociodiversidade e incorporá-la em suas práticas, o ativismo ambiental se torna mais eficaz na luta por um mundo mais justo e sustentável para todos. Ao reconhecer e fortalecer a participação de mulheres, pessoas trans e não-binárias no ativismo ambiental, podemos construir um movimento mais justo, inclusivo e eficaz na luta por um futuro sustentável para todos.

Referências

ALBUQUERQUE, L.; BARBIERI, I. B.; FELTRIN, C. Justiça ambiental e conflitos socioambientais: uma questão de gênero? Captura Crítica: direito, política, atualidade. Florianópolis, v. 6, n. 1, p. 249-265, 2017.

BORGES, G. As mudanças climáticas impactam a população LGBTQIA+. De que maneira podemos nos proteger? [on line].

CÂMARA, Andreza Aparecida Franco; TERRA, Alessandra Dale Giacomin; SOARES, Paulo Brasil Dill. Atuação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no ciclo neodesenvolvimentista. Research, Society and Development, [S. l.], v. 10, n. 10, p. e98101018602, 2021.

CORDEIRO, Paula Regina de Oliveira. A disputa entre o território tradicional quilombola-pesqueiro de Rio dos Macacos e o território militarizado da Marinha do Brasil. Revista de Antropologia, v. 1, n. 53, p. 173-187, 2019.

GARCIA, E. Como a discriminação da comunidade LGBTQIA+ se associa à crise climática. [on line].

NASCIMENTO, A. H. B. LGBTQIAPN+ e justiça climática: intersecções urgentes! [on line].

ONU. Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. [on line].

SILVA, M. J.; SATO, M. T. Territórios em tensão: o mapeamento dos conflitos socioambientais do Estado de Mato Grosso – Brasil. Ambient. Soc., v. 15. n. 1, p. 1-22, 2012.

SILVA, Patrícia Pereira da; ROTHMAN, Franklin Daniel. Press Representation of Social Movements: Brazilian Resistance to the Candonga Hydroelectric Dam. J. Lat. Amer. Stud., [S. l.], v. 43, p. 725–754, 2011.


  1. Sugestão de Vídeo: Webinar “Clima e a luta LGBTQIAPN+: justiça climática pra quem?”.↩︎